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A 'lição' de Pauê

Garoto supera o trauma de perder as duas pernas
e dá lição de vida e de superação ao se dedicar ao triathlo

As piores situações podem ser superadas. Este pensamento otimista pode ser comprovado com o esforço e determinação de um triatleta amador, Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê. Nem o acidente que lhe tirou as duas pernas o fez desistir da paixão pelo esporte. A verdade é que ele corre atrás. Nesta entrevista à Revista SuperAção, ele conta sua história e a importância do triathlon em sua vida.

 

 

Como era a sua vida antes do acidente?
Fui atropelado por uma locomotiva que transitava em uma área dentro de São Vicente, onde moro, e que estava desativada por motivos de segurança, falta de proteção (cerca) e por passar dentro de uma cidade. Era noite (por volta das 20h30), a locomotiva vinha apagada e tomei um grande susto. Não tive reação no momento. Foi muito rápido. Porém, lembro de tudo minuciosamente, desde o momento do ocorrido até a hora que cheguei ao hospital e fui medicado. O acidente ocorreu dia 8 de junho de 2000. Eu estava indo treinar em uma academia que fica do outro lado da quadra da minha casa e, para ter acesso, precisa-se atravessar a linha férrea. Sempre fui adepto de atividades esportivas. Competia no surfe e fazia um trabalho de musculação e natação em academia para preparação física. O triathlon entrou na minha vida após o acidente. Tudo aconteceu no auge da adolescência, aos 18 anos.


E como foi a recuperação?
Fiquei 58 dias no hospital. Passei por fases muito complicadas, com crises de embolia asséptica, choque anafilático a alguns tipos de antibióticos, paradas cardíacas... Quando tudo parecia bem, de uma hora para outra meu estado se agravou, fiquei pior do que quando dei entrada no hospital. Foram fases difíceis. Para se ter uma idéia, era removido todos os dias do hospital onde estava para a Santa Casa de Santos para sessões de câmera hiperbárica, o que ajudou a conter a proliferação de bactérias alojadas na parte amputada. Além disso, tomava duas anestesias, uma geral e outra hack, diariamente, pois não suportava a dor. Foi a única medida que os médicos tiveram para amenizar meu sofrimento, me fazendo dormir nas sessões de centro cirúrgico diárias (limpeza do coto - membro amputado).


 

Qual a importância do esporte na sua recuperação?
Minha adaptação foi muita rápida. Um mês após a cirurgia de fechamento de coto, eu estava em cima das minhas novas pernas (próteses). Não estava andando ainda, mas acredito que esse fato foi o pontapé inicial da reabilitação psicológica. Fui, aos poucos, pegando confiança com o uso de algumas orteses (muletas, andador) e, em menos de três meses treinando, estava seguro e caminhando para essa nova etapa de vida. Com certeza o esporte entra como fator relevante, pois, sem dúvida, foi ele quem me deu a total confiança e capacidade para estar hoje levando uma vida normal. O esporte, de início a natação apenas, foi a alavanca que me projetou para que tivesse uma reabilitação com rapidez e sucesso. No começo, nadar era muito difícil, devido ao ponto de equilíbrio que havia mudado em meu corpo. Mas, aos poucos, tudo foi ficando melhor, me empolguei e voltei até a surfar.

 

Quando o triathlon entrou na sua vida?
Iniciei no triathlon em 2001, com os treinos, e no ano passado passei a competir. Na verdade, o que sempre foi minha dificuldade, e continua sendo, é a adaptação à corrida sobre as próteses (dores na região do coto), parte que faço na cadeira de rodas no triathlon. Comecei por dois motivos: qualidade de vida e por estar envolvido em um ambiente onde só existiam triatletas. Esse foi o fator mais certo para a escolha. Ver atletas como o Paulo Miyashiro, Fred Monteiro, Oscar Galindez sempre foi um estímulo. Depois, conheci atletas em condições parecidas as minhas, como o Rivaldo Martins. Além, é claro, do meu técnico, José Renato Borges, e da instituição educacional, a Unimonte, que sempre me apoiaram.


 

Em dois anos no triathlon, quais foram as mudanças no treino?
Digamos que mudou bastante em relação à intensidade e constância. Antes, acredito que estava em situações delicadas, com a musculatura hipotrofiada. Ganhei condicionamento nadando e fazendo musculação. Meu segundo passo foi a adaptação em pedalar, mas foi fácil. Comecei na bicicleta ergométrica, passei a fazer aulas de bike indoor e, enfim, comecei a pedalar na pista. Com certeza não se pode esquecer do fator psicológico, que sempre foi muito trabalhado. Na fase que estava apenas nadando, meu técnico fazia questão que eu estivesse presente em todas provas aquáticas (competições de piscina, travessias em mar aberto), tanto é que fui ganhar confiança para competir depois de uma travessia de cerca de 8 km que cortava a baia de Santos e São Vicente. Hoje, nado cerca de 3 km em piscina (6 vezes por semana); pedalo cerca de 40 a 70 km (pelo menos 2 vezes por semana) e corro (está começando agora a treinar na cadeira). Antes, eu fazia as provas andando, pelo menos umas três provas fiz andando, portanto, antes meu treinamento era andar bastante, que serviu para minha adaptação social.


Quais as principais dificuldades que enfrentou no esporte em função do acidente?
Adaptação nos encaixes de próteses. No começo tudo dói. Sofria muito para andar nas longas distâncias (acima de 10 km). Hoje, consigo numa boa. Como falei, tive dificuldades para nadar devido ao equilíbrio do corpo na água, a parte de trás tendia a afundar, já que não existia batida de perna.

 

Como foi a primeira prova de triathlon?
Foi em Santos, no Internacional de Triathlon, num revezamento, fiz o pedal com mais dois companheiros. Mas a sensação da estréia foi na primeira etapa do Troféu Brasil 2002. Foi inesquecível. Pude lembrar todos os momentos difíceis que havia passado em menos de dois anos e perceber o poder de Deus na minha vida. Pude me sentir especial naquele momento. Foi muito linda minha chegada, todos gritavam em coro meu nome e torciam, alguns até choraram. Pude ver que era tudo muito verdadeiro, pois a maioria que estava presente vivenciou meu acidente. A partir dali, fui tocado no coração e senti que esse era um dos meus deveres nessa vida, trazer alegria e garra para as pessoas.

 

O que o triathlon trouxe para a sua vida?
Me deu consciência de superação, fortalecimento e qualidade de vida. Enxergo o triathlon como uma modalidade igual as outras, que busca a integração corpo e mente do atleta. Fazer uma prova de triathlon não é só preparo físico, não. Tem que ter cabeça.

 

E quais os seus sonhos no esporte?
Obter resultados, futuramente, representando o Brasil. Tenho muita vontade de competir numa Paraolimpíada.

Como será sua preparação para atingir este objetivo?
Ainda estou estudando. Gostaria muito de ir caso o triathlon integrasse as paraolimpíadas. Se for para ir em outra modalidade, precisaria estar pontuando no esporte específico, e isso eu não venho fazendo. O triathlon tem sido meu esporte competição. Conversei com a canadense Lorene Hatelt, responsável pela integração das categorias no Mundial de Cancun e ela está brigando para que o triathlon integre as paraolimpíadas. No momento existem 10 países que participam do Mundial. Precisa de no mínimo 24. Mas estou sem pressa, a hora que vier, estarei mais experiente e preparado.

 

Como foi a participação no Mundial?
Obtive o primeiro lugar na categoria amputado bilateral abaixo do joelho. Porém, a competição acabou sendo com outros tipos de deficientes para que houvesse uma motivação. Completei a prova em 2h46min33, com o tempo de natação de 30min19, bike em 1h24min10 e corrida para 46min36. Eu era o único na categoria amputado bilateral, mas existiam muitos outros atletas portadores de deficiência física. Acho que fui o quinto a sair da água e creio ter ficado entre os 10 primeiros entre mais de 80 atletas de todo mundo. Claro que minha amputação é muito mais complicada em termos de prática esportiva, por isso acredito que fui o único na minha categoria. No ciclismo, competia com atletas com amputação unilateral e, sem dúvida, eram eles que me puxavam. Tenho que fazer um agradecimento especial a Letícia Amorim, técnica de vôlei de praia da dupla olímpica Adriana Behar e Shelda. Foi ela quem me deu a passagem e estadia do mundial.


Quem são seus ídolos?
No esporte, Ayrton Senna. E meu pai e minha mãe, eles sofreram mais que eu. São heróis por tudo que encararam.

Como é o apoio da família em relação ao esporte?
Eles me apoiam e muito, na verdade, em tudo. Tenho um irmão, o Bruno, o qual amo muito. Ele sofreu muito por mim e hoje é meu companheiro de treinos e da vida. Tenho alguns amigos que são muito importantes pra mim, sempre que possível estou em contato com eles, pois a amizade é difícil de encontrar.


E, além do esporte, o que gosta de fazer nas horas livres?

Faço faculdade de Fisioterapia (2º ano), pretendo me especializar em reabilitação de amputados. Adoro surfar, namorar, sair para as baladas quando não há competições. Muitos abominam essa minha postura, mas acredito que não preciso mostrar nada para ninguém, sou eu, do jeito que me sinto feliz. Me considero uma pessoa normal, esse papo que atleta não sai para a noitada é arcaico. Consigo separar as coisas e as responsabilidades. Hoje sou uma pessoa equilibrada e amadurecida.

 

Perfil
Paulo Eduardo Chieffi Aagaard (Pauê)
21 anos (06/02/82)
65 kg / 1,73 m

Títulos:
Vice-campeão no Troféu Brasil 2002
3º no Pan-Americano 2002
1º no Mundial em Cancun 2002

Melhor resultado:
“O mais importante foi o resultado que obtive foi pessoal, ao completar minha primeira prova."

 

Por Renata Rondini
Matéria originalmente publicada na Revista SuperAção