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Começar de novo


Paciência, dedicação e disciplina são as ferramentas para quem volta
a correr depois de um longo período afastado do esporte

 


Dez dicas para tirar o tênis do armário:
Do treinador Luiz Fernando Bernardi (Find Yourself)


1) Procure uma equipe ou técnico capacitado para ter segurança na orientação que irá receber.
2) Tenha como referencial sua condição atual e, a partir dela, tome referências para onde quer chegar.
3) Procure desenvolver um treinamento consistente, com objetivos de médio a longo prazo.
4) Tenha como princípio a valorização de sua saúde, se preocupando com avaliações antes, durante e depois desse processo de treinamento.
5) Juntamente com seu técnico, estabeleça metas racionais, gradativas, que possam ser conquistadas passo a passo.
6) Valorize o que o treinamento lhe propicia além dos resultados numéricos de uma competição, tais como melhora de saúde, auto-estima, produtividade, conscientização corporal, sociabilização, etc.
7) Desenvolva sua auto crítica em relação ao seu treinamento, ouvindo as sensações de seu corpo, entendendo o porque de cada treinamento e as suas possíveis respostas.
8) Tenha em seu técnico ou equipe uma forte união, despertando o diálogo das dificuldades que irão aparecendo em cada treinamento.
9) Desenvolva sua disciplina, persistência, e auto motivação, pois elas farão a diferença durante todo o processo de treinamento.
10) Mude seu jeito de se enxergar, pois agora é uma nova fase e novas atitudes e respostas serão alcançadas.

 

Tirar o tênis do armário e colocá-los pra gastar sola novamente parece uma missão impossível. Muitos corredores, por motivos diversos, deixam o esporte de lado por um longo período. Apesar da paixão pelas ruas, chegam a ficar afastados por anos. E temem dar fim a aposentadoria pela incerteza do sucesso no retorno. Como a vida sempre proporciona novas oportunidades, voltar a correr pode se tornar uma realidade, sim! Mas a tarefa exige muita atenção espacial. Cautela, dedicação, disciplina e, principalmente, paciência são fundamentais.

 

Regra número 1: o passado não pode ser referência de performance atual. Reiniciar no estágio de evolução que se tinha no momento do abandono da corrida é utopia. “É comum querer voltar exatamente no ponto em que parou, pois o inconsciente guarda a sensação de prazer e satisfação do esporte. O ego também influencia. Ninguém quer estar abaixo do que podia antes. Mas o corpo sofre perdas com o intervalo, principalmente de musculatura e resistência cardio-respiratória. Por isso, tem que haver uma adaptação às novas condições”, afirma o técnico Miguel Sarkis.

 

O retorno requer os mesmos cuidados da estréia. O primeiro passo é a avaliação física para saber como está a saúde. Significa seguir os procedimentos básicos para desenvolver um treinamento com segurança, tais como avaliação cardiológica (teste ergométrico), ortopédica (avaliação do sistema músculo esquelético) e clínica geral (exames de sangue, perfil bioquímico, exame de fezes e urina). Os resultados, conjugados com o histórico do praticante, serão guia para o planejamento dos treinamentos, que deverão ser lentos e progressivos.

 

O técnico da equipe Find Yourself, Luiz Fernando Bernardi, enumera alguns comportamentos comuns entre aqueles que estão retornando à ativa. “Esta fase traz uma ansiedade excessiva, uma percepção do atleta superestimada do seu condicionamento, comparações inadequadas com antigos resultados e metas irreais a um planejamento consistente quanto às respostas do organismo”. A pressa é o maior erro daqueles que regressam à corrida.

 

Como conter a vontade de dar passadas tão velozes como se fazia antes? Como ficar de fora daquela prova em que se sentia tão confortável? Por que treinar tão pouco se no passado realizava três vezes mais? Questões como estas são comuns e a resposta, segundo especialistas, é única: mantenha-se motivado, calmo e não esqueça do ditado popular: “a pressa é inimiga da perfeição”. Pedro José Winterstein, professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp com doutorado em psicologia no esporte, dá dicas para um retorno menos dramático. “Estar convencido do momento que está vivendo (suas reais condições), satisfeito com a performance atual e com as metas traçadas é um meio de controlar a ansiedade, pois está consciente que está fazendo a sua parte, dando o seu melhor.”

Winterstein explica que as razões que provocaram a interrupção da prática devem ser avaliadas para ajudar a garantir uma volta bem sucedida ao esporte. “Identificar o motivo que fez o atleta parar e observar se ele realmente foi superado é o primeiro passo. Caso contrário, uma nova parada pode acontecer. Deve se ter cuidado com as metas traçadas, pois, caso sejam irreais, podem se tornar uma fator de desmotivação. O melhor caminho é trabalhar com metas parciais e que sejam gradativas conforme a evolução.”

 

Treinamentos lentos e progressivos são os indicados nesta fase. Mas a intensidade e quantidade variam conforme as condições e histórico do praticante, assim como as competições. Não existe uma fórmula pronta para um regresso com êxito, como explica o treinador Henrique Viana (Pé de Vento). “Alguns atletas retornam mais rapidamente a sua antiga performance, outros nem tanto. Isso vai depender de mais ou menos tempo, da motivação e dedicação empregada e estas variam de atleta para atleta.”

 

Viana lembra ainda de fatores como o período em que o corredor ficou parado, do potencial genético, da eficiência do planejamento e dedicação ao programa. “As participações em competições podem ser graduais após algum tempo de treino, dependendo do seu ponto inicial e da sua evolução. A competição seria importante na avaliação da evolução e motivação, desde que o corredor não entre em provas fora das suas possibilidades e precocemente, isto pode gerar frustração”, analisa.

Como em todo bom programa de treinamento, é preciso orientação de um profissional de Educação Física, dedicação e bom senso para não fazer do prazer da corrida um tormento, seja começando ou retornando ao esporte.

 

Por Renata Rondini
Matéria publicada originalmente na Revista SuperAção (Julho/03)