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Técnico Virtual


Programas de treino à distância são uma alternativa eficiente,
desde que exista interação entre corredor e treinador

 

A corrida é um esporte que permite liberdade. Mudanças de localidade ou a incompatibilidade de horário entre técnicos e atletas não são desculpa para ninguém ficar parado. Com a Internet, o treinamento à distância se popularizou ainda mais. Com a facilidade de comunicação e troca de informações, tem se tornado uma prática bastante comum. Mas, a metodologia levanta algumas questões. Como é treinar sem o olhar crítico e observador do técnico? Como saber se a execução do treino está correta? Motivação, como não perdê-la?

São diversas as razões que levam um corredor a decidir por um técnico ‘virtual’. Desde de uma mudança de moradia inesperada até a falta de profissional capacitado para os interesses do atleta na região. No entanto, antes de encarar uma preparação na qual os olhos do técnico são os relatos semanais do aluno, vale avaliar se o praticante é disciplinado, detalhista e bom comunicador. O sucesso do trabalho está diretamente ligado ao cumprimento do programa e ao feedback entre orientador e executor.

 

 

Os passos iniciais são os mesmos de quem vai começar um programa tradicional: testes físicos para saber se está apto a atividade física e uma entrevista com o técnico, na qual serão compartilhados os objetivos a serem atingidos e as fases de treinamento que serão realizadas. "São pedidos exames como hemograma e teste ergométrico. Com os resultados, preenche-se um interrogatório médico, relatando se já houve algum problema com a saúde (lesões, convulsões, cirurgias, alergias) ou se há antecedentes familiares de doenças cardíacas, diabetes, etc. Com a liberação do médico, é sugerida uma consulta com nutricionista para avaliação (inquérito alimentar, peso, altura, índice de gordura corporal) e também um teste físico para determinar nível de condicionamento. A partir daí, de acordo com o nível técnico, disponibilidade de horários, experiência em corrida (anos de treinamento) e objetivos, é que será elaborada uma planilha de treinamento”, explica o diretor da Federação Paulista de Atletismo, Wanderlei de Oliveira.

 

O BÁSICO E OS ERROS

A cumplicidade e confiança entre o profissional e o corredor são importantes em qualquer programa, mas à distância se tornam imprescindíveis. Sem o contato pessoal constante, os erros mais comuns cometidos são a omissão de informações (desde uma simples dor de cabeça até má alimentação no dia de treino), pouco detalhamento sobre as condições físicas após a atividade, irregularidade na disciplina, mal planejamento da administração de tempo, grande variação dos percursos e perda ou diminuição de um contato permanente com o técnico.

 

A maior vantagem deste sistema de preparação é a praticidade. O atleta pode cumprir a planilha no horário que considerar mais adequado e no local que preferir. Esse tipo de trabalho desenvolve um maior sentido de responsabilidade no cumprimento das atividades. Falta do olhar crítico e apoio do técnico para momentos de exaustão, desmotivação e a ausência de companheiros de equipe são apontados como desvantagens.

 

Quem treina sozinho precisa estar sempre atento às respostas do corpo. Um detalhe que passe desapercebido pode provocar lesões. “Os problemas podem acontecer quando se tem uma visão muito diferente do técnico ao estimar se o que está acontecendo é correto. Ou ainda não perceber alguma evidência de respostas ao treinamento, como respiração, forma de pisada, dores, que chamariam atenção do treinador. É necessário haver muita sincronia entre a visão do técnico e o depoimento das sensações do corredor”, explica o técnico Luiz F. Bernardi, da equipe Find Yourself.

Mesmo com a eficiência da comunicação on line, contatos pessoais sempre são bem-vindos. Atualmente, com a evolução da qualidade e quantidade das provas em diversas regiões do Brasil, as competições têm sido o palco dos encontros entre técnicos e alunos ‘distantes’. “Há muitos detalhes que o atleta não consegue relatar na forma escrita. Somente on line, o relacionamento fica muito impessoal. O profissional tem que ter a sensibilidade de olhar, estar com a pessoa a qual treina”, relata o professor paulista Vanderlei Severiano, o Branca.

 

 

Segundo profissionais com experiência em orientação à distância, o atleta que tem o hábito de treinar na ausência física do técnico se sente seguro também nas competições. É claro que a programação e avaliação das provas são realizadas na comunicação constante entre treinador e corredor.

Mesmo com eficiência comprovada, técnicos afirmam que trabalhar longe do atleta é mais difícil que no método convencional, como comenta Wanderlei de Oliveira. “A proximidade com o atleta sempre será o ideal, porque o técnico poderá corrigir possíveis erros. Assim, a evolução pode ser mais rápida.” Mas Oliveira afirma que a distância não prejudica em nada a motivação do corredor. “Tendo um objetivo a médio e longo prazo, não há desculpas para frio, chuva, percurso, preguiça ou qualquer outro problema que possa ser um empecilho para a seqüência dos exercícios e perda da motivação.”


 

A Internet facilitou o encontro de profissionais, no entanto o treinamento de corrida é individualizado e, segundo especialistas, não há uma fórmula pronta a ser seguida por todos. Os treinos são personalizados de acordo com as condições físicas de cada praticante e seu objetivo. O uso de planilhas de treino generalizadas disponíveis na rede, que têm função meramente ilustrativa, é contra-indicado.

Na hora de encontrar um treinamento à distância, o praticante deve buscar informações sobre o profissional e suas qualidades, e avaliar se a proposta está de acordo com seu objetivo. O custo deste sistema é mais acessível do que o tradicional e os valores são de acordo com o tipo de programa ou especificidade do profissional, como confirma o técnico Luiz Fernando Bernardi. “É mais barato pois a tecnologia utilizada, principalmente o e-mail permite um custo reduzido. A média de preço está em torno de R$ 80 mensais."

 

Por Renata Rondini
Matéria publicada originalmente na Revista SuperAção (Ed. 08)