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A Diabetes Superada


Vinícius Dias Santana encara o diabetes na rotina de treinamentos e competições

 

Por que eu? Toda vez que a vida traz uma surpresa desagradável, muita gente questiona a razão de ter sido o ‘escolhido’. Muitos se entregam e desistem de um futuro triunfante, que poderia ter vindo não somente pela continuidade do percurso, mas, principalmente, por ter vencido um grande obstáculo. Mesmo as pessoas determinadas se abalam, lógico, como todo mortal. Mas não entregam os pontos. Pelo contrário, ganham mais motivação para correr atrás. Cada vez mais.


O triatleta amador Vinícius Dias Santana, 20 anos, descobriu que era diabético em 2000. Estranhos ‘sinais’, como beber muita água, cansaço excessivo após os treinamentos e acelerada perda de peso, levaram a exames que constataram a diabetes tipo 1 (dependente de insulina). “A primeira coisa que pensei, é claro, foi: por que eu? Sabia que o diabetes não tem cura e não adiantava ficar parado, reclamando. Então, fui buscar tratamento adequado e muita informação para enfrentar a doença e continuar a minha rotina.”

 


A prática diária de exercícios físicos, a utilização de insulina e dieta (sete refeições diárias) ajudam o esportista no controle do nível de açúcar no sangue. O triatleta de Belo Horizonte é um exemplo de que é possível levar uma vida normal mesmo com diabetes. Há cinco anos praticando a modalidade, não deixou que a doença alterasse seus planos: ser um atleta de elite e disputar provas de ironman.

Os frutos começaram a ser colhidos no ano passado. Garantiu um terceiro e um quinto lugares no Triathlon Long Distance, categoria 20-24 anos (etapas de Ubatuba e Pirassununga, respectivamente).
Foi segundo no Troféu Brasil (categoria 17-19 anos) na etapa de Belo Horizonte e completou o Campeonato Pan-Americano do Rio de Janeiro em nono lugar, conquistando vaga para o
Mundial da Nova Zelândia, que não disputou por falta de patrocínio.

O triathlon é um esporte caro e Vinícius ainda tem mais gastos com a doença (R$ 250,00 mensais), tudo custeado pela família. Ele conta apenas com o apoio da Nutrimental,
que fornece as barras de cereal Nutry Diet.

 

Garante não sentir nenhuma desvantagem em relação aos adversários. Aponta apenas um ponto negativo: o custo com a doença poderia ser um investimento a mais em equipamentos. Define-se como um atleta que precisa apenas de um pouco mais de atenção.

Não posso ficar muito tempo sem me alimentar e tenho que controlar a taxa de glicemia. No dia anterior à prova faço sete exames glicêmicos. Antes da largada faço mais dois, antes e após o café da manhã, para entrar na disputa em condições iguais. Adaptei um glicosímetro na bike para acompanhar o meu estado. Ano passado, pela primeira vez, tive que usar insulina no meio da prova. Foi em Pirassununga. O teste mostrou taxa de açúcar elevado e não tive dúvida, sem parar a bike, apliquei a injeção na barriga. A doença é apenas um estresse a mais na competição. Se eu não estiver sempre atento posso pagar muito caro.”

Para os diabéticos é fundamental consumir alimentos com baixo índice glicêmico, pois o organismo vai recebendo glicose em pequenas doses, sem causar grandes picos de açúcar no sangue.

 



 

O mineiro, que atualmente se divide entre os treinamentos e a faculdade de comércio exterior, chegou ao triathlon por acaso. Disputava mountain bike, começou a praticar natação para complementar a preparação e, em 1998, motivado pela prova mais famosa de ironman, a do Havaí, entrou para o triathlon. Naquela época nem pensava em ter o esporte como carreira. Porém, após o intercâmbio de 11 meses na Austrália, em 2001, onde estudou e participou de competições na modalidade, decidiu ter o esporte como objetivo.

“Vi como as pessoas treinam sério por lá e também o apoio do governo é impressionante. Mesmo sendo estrangeiro, todos os meus gastos com a doença eram custeados pelos órgãos públicos. Quando retornei ao Brasil mantive os treinos para não
ficar defasado em relação aos outros países.”

 

Vinícius é orientado pelo treinador australiano Rod Cedaro, que conheceu durante a viagem, e semanalmente recebe as planilhas, mantendo um treinamento à distância. O triatleta tem uma rotina de 20km de natação, 400km de ciclismo e 100km de corrida por semana, totalizando 25 horas de preparação semanais. Ele normalmente verifica a glicemia durante e depois dos treinos, e caso o exercício tenha duração superior a duas horas, um teste pode ser feito também durante os exercícios.

 

Vinícus Santana se define com uma pessoa que gosta de desafios e tem atitude. “O triathlon é desafiador, combinado com a diabetes ficou ainda mais, portanto, posso dizer que sou um cara que gosta de desafios. E ambos (esporte e diabetes) exigem a mesma disciplina. Realizar é uma questão de atitude, você tem que enfrentar a doença, encarar as dificuldades e nunca perder a motivação.”

 

 

Por Renata Rondini
Matéria publicada originalmente na Revista SuperAção (Ed. 13)