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Alexandre Manzan


Triatleta brasiliense tem um estilo próprio de encarar a vida e o esporte.
Apesar das dificuldades, segue em busca de conquistas

 

Tornar-se um campeão não acontece da noite para o dia. A receita conta com ingredientes como dedicação, obstinação e talento. Para muitos, é o caminho natural. Para outros, sinônimo de privação. Aos 29 anos, Alexandre Manzan olha para trás e acredita ter conseguido conciliar performance a uma vida ‘normal’. No início, como todo garoto, gostava de festas e diversão, mas nem por isso deixou de ser vitorioso. O triatleta tem resultados expressivos no currículo, entre eles o vice-campeonato mundial em 1996, resultado jamais obtido por outro brasileiro.

 

Tido, por muitos, como garoto-problema, Manzan não se esquiva quando questionado sobre o assunto. “Sou meio conhecido como rebelde, indisciplinado. Nunca deixei de fazer o que um garoto devia fazer, o que tinha vontade de fazer. Eu não fazia o que eles (patrocinadores) queriam que eu fizesse. O atleta, além de tudo, é um ser humano.” Apesar de defender seu estilo, deixa claro que não quer posar de modelo, tendo ciência de que as escolhas sobre o rumo que a carreira deve seguir devem partir de cada atleta. “Não é receita de bolo. Não é todo mundo que consegue agir assim. Se vejo que dá para fazer, vou lá e faço. Se é impossível de conciliar, deixo pra lá. Não me arrependo do que já fiz, mas isso incomoda muita gente”, completa.

 


Manzan é um lutador. Uma das passagens mais marcantes de sua vida é o acidente sofrido em 1997. O triatleta fazia o pedal em uma rodovia estadual de pouco movimento, a aproximadamente 40km de Brasília, quando foi atingido por um carro em alta velocidade, sendo lançado por mais de 10 metros fora da pista. Sua bicicleta ficou em pedaços espalhados na pista. No hospital, retomando a consciência, acabou sabendo a gravidade de seu acidente. Além de escoriações por todo o corpo, teve um trauma craniano leve, perdeu parte da orelha direita e couro cabeludo, fratura exposta no tornozelo esquerdo e múltiplas fraturas na tíbia e perônio.

 

As previsões dos médicos não foram animadoras. Sem afirmar se poderia voltar a correr como antes, foi dado um prazo de dois meses para que pudesse voltar a andar. Mas, em três meses retomou os treinos e em cinco estava competindo. “Vi que sou capaz de muita coisa que não imaginava. Tinha na cabeça que ia voltar a ser o que era. Tive muita força de vontade e uma confiança muito grande. Depois do acidente, comecei a dar valor a coisas pequenas. Pedi a Deus vitórias e Ele me deu este desafio que se transformou na maior vitória da minha vida”, conta.

 



 

Manzan guarda com carinho o vice-campeonato mundial de 96, quando venceu duas etapas da Copa do Mundo, em Gamagori, no Japão e Ilhéus, no Brasil. “Sem desmerecer ninguém, o que eu fiz nenhum outro brasileiro fez até hoje”. Apesar do feito, acredita não ter o reconhecimento merecido. “Isso não é suficiente para ter respeito aqui no Brasil. O que fiz poucas pessoas lembram. Lá fora sou mais respeitado do que aqui. A gente tem que ser o primeiro sempre para ser reconhecido”, alfineta.

 

Se o reconhecimento só vem com resultados, Manzan promete ir atrás deles. O problema é justamente a falta de um patrocinador e a dificuldade para estar presente em várias provas. "A falta de dinheiro não me deixa ser mais ambicioso", explica o triatleta, que espera em breve voltar ao dias de glória.


PERFIL:

Alexandre Manzan
Natural de Brasília/DF
Idade: 29 anos (05/06/1974)
Altura: 1,68m
Peso: 64kg
Apoio: Timex, Nike e Fundação Municipal de Florianópolis

 

O TREINAMENTO
Formado em Educação Física, Manzan cuida dos próprios treinamentos desde 2000. “Sempre estudei, pesquisei muito. Mas não é qualquer um que pode começar a fazer seus próprios treinos. Tem que ter conhecimento científico”, explica.
"O treino é uma coisa individual. Às vezes, nem eu consigo seguir direitinho a planilha.”

 

Para uma competição como o Ironman, Manzan pensa no treino como uma pirâmide, começando com uma carga leve, que vai subindo gradualmente, até atingir o ápice, que é mantido por duas semanas. Depois disso, regride no volume, até chegar quase no início. Isso a uma semana da prova. “Uma semana antes, quase não faço nada. Abaixo primeiro a corrida, depois o ciclismo e, por fim, a natação, pois a recuperação de cada atividade é diferenciada.”

No começo da temporada, Manzan costuma usar a musculação, duas vezes por semana, quando trabalha forças específicas que não irá obter nas três modalidades. Quando o assunto é descanso, a palavra de ordem é relaxar. Nada de atividade mesmo.
“Ouço o que o corpo fala. O treino para o cansaço é o descanso”, garante.

 

Por Fernando Evans
Fotos: Fernando Fragoso
Matéria publicada originalmente na Revista SuperAção (Ed. 16)